domingo, 24 de outubro de 2010

Malika Ayane: Grovigli (2010)

Às vezes fico pensando o que nos faz continuar acompanhando e admirando um determinado artista. Particularmente, penso que algo fundamental é que o artista me surpreenda a cada álbum, buscando sempre melhorar. Talvez por isso, o que sempre espero de um(a) cantor(a) quando do lançamento de um novo trabalho é que ele seja melhor que o anterior.
Assim, acho válido lembrar que o álbum de estreia de Malika Ayane foi elogiadíssimo aqui no blog. Logo as expectativas em relação a "Grovigli" eram grandes e não se pode dizer que foram superadas, sequer alcançadas.
O álbum começa com a ótima Ricomincio da qui, defendida no Festival di Sanremo deste ano e vencedora do Premio della Critica 'Mia Martini'. Como já comentei sobre a música aqui, apenas digo que é excelente, uma pena que seja uma das poucas que merecem elogio no álbum.
 Considerando o álbum de estreia de Malika, seria quase difícil acreditar que Thoughts and Clouds, uma música tão fofa e alegre, pertencesse ao repertório de Malika... Seria se não fosse pela voz extremamente particular da cantora de ascendência marroquina.  Lembro que ao final da resenha do álbum "Malika Ayane" disse que o recomendava para quem gostasse de músicas "pra baixo". Logo se percebe que não posso dizer o mesmo sobre "Grovigli".
La prima cosa bella, terceira faixa do álbum, é a regravação (com arranjo totalmente novo) da música de Nicola di Bari e Mogol, e interpretada pelo grupo Ricchi e Poveri no Festival di Sanremo de 1970 (1). A versão de Malika Ayane fez parte da trilha sonora do filme também intitulado "La prima cosa bella" (2) lançado em 2010. Bom, considerando as covers de Over the rainbow (presente no álbum anterior) e La prima cosa bella, pode-se dizer que Malika Ayane acerta em cheio nas suas regravações.
Brighter than sunshine é outra música fofinha, pra cima, até mesmo boa, mas não tem nada de especial. Daquelas que depois de ouvir o álbum talvez você nem se lembre.
Ok, aqui as coisas começam a piorar.
Normalmente se espera de um álbum que tem um dueto que ele seja o ponto alto do disco. Porém aqui, o dueto com Paolo Conte em Little Brown Bear resultou na pior faixa de "Grovigli". Até se pode entender que alguns artistas sonhem em cantar com seus ídolos, e em vários casos o resultado é positivo, como, por exemplo, Tiziano Ferro e Laura Pausini em Non me lo so spiegare. Contudo, o mínimo que se espera é que as vozes combinem, o que não aconteceu com Malika e Conte.
Mille é um dos poucos destaques positivos. Continua a linha divertida do álbum e o coro com as crianças funcionou bem. Ainda assim, não é extraordinária.
Outro (Ricomincio da qui) é uma outra versão de 1 minuto e 29 segundos somente da melodia de Ricomincio da qui. Seria uma ótima ghost ou bonus track, mas aqui no meio do cd? Não soa como "encher espaço"?
Satisfy my soul foi o single que sucedeu Rimincio da qui e é mais intensa, no sentido positivo, que as sucessoras. Não é ruim, mas não tem o brilho que uma música da Malika poderia ter.
Chiamami adesso é uma música curta (02:55) com uma letra também curta, mas que talvez seja uma das poucas que remetem ao estilo adotado no álbum de estreia da cantora. A voz de Malika está ótima na música, mas não faz com que a música seja ótima.
Sogna, décima música do álbum, é monótona e até mesmo chatinha. Para completar, a décima primeira faixa é Sogna (Reprise) que tem 47 segundos de duração, ou seja,  a mesma coisa de Ricomincio da qui e Outro (Ricomincio da qui). Oi? Será que não queriam que o álbum fosse um EP e começaram a brincar com as melodias só pra fazer volume?
E o álbum é concluído com um outro dueto: o casal Malika Ayane e Cesare Cremonini em Believe in Love. Bom, pelo menos nesse dueto as vozes combinam bem. A música que foi escrita e arranjada por Cremonini é bonita, mas está longe de ser espetacular. A duração? Dois minutos e vinte e quatro segundos. Impressão minha ou "pressa" definiu esse álbum?
Os comentários gerais do álbum, infelizmente são bem diferentes do que eu esperava antes de escutá-lo. "Grovigli" é um disco que tem altos e baixos e que pela duração total (Menos de 35 minutos, o que dá uma média de menos de 3 minutos por faixa) está bem mais para um EP do que para um álbum. A impressão que dá é que não queriam que o nome da Malika saísse da mídia (algo semelhante ao que ocorreu com Giusy Ferreri em "Fotografie") e fizeram um álbum às pressas. A pergunta principal: O disco é ruim? Não. É provavelmente melhor do que muitos que vemos por aí, porém está muito abaixo do potencial da Malika e do seu álbum anterior. Apenas para finalizar, digo que continuo achando Malika Ayane uma cantora fantástica, mas espero um próximo álbum bem melhor. E ah, sem pressa, viu? Nenhum fã acha ruim esperar algum tempo para ter nas mãos um ótimo cd...


Melhor(es) música(s):
Ricomincio da qui, La prima cosa bella, Brither than Sunshine, Mille.
Piores músicas:
Sogna, Little Brown Bear.
Nota: 5.0

1: Pra que ficou interessado, clicando aqui é possível assistir a uma apresentação de La prima cosa bella por Nicola di Bari em 1970.
2: O filme foi dirigido por Paolo Virzì foi lançado no dia 15 de janeiro de 2010 e você pode saber mais informações em: http://it.wikipedia.org/wiki/La_prima_cosa_bella.

5 comentários:

Bruna / Chiisana Hana disse...

No álbum anterior achei que a Thay tinha dado uma nota alta demais, mas dessa vez sou obrigada a concordar com a nota dada. O disco é realmente fraquinho. No anterior, apesar de eu não curtir muito a voz de Malika, o nível era indiscutivelmente superior.

Fabio disse...

Não tenho absolutamente nada contra a Malika, o que eu não entendo é porque cantoras como ela, Giusy Ferreri, Anna Tantangelo têm tanta repercussão, tanto espaço na mídia, e uma cantora sensacional e fora de série como a saudosa e eterna Valentina Giovagnini teve seu trabalho, lamentavelmente, desprezado e rejeitado por praticamente toda a mídia italiana, a ponto das gravadoras fecharem as portas a ela. A música italiana tem várias páginas de incoerências ao longo da história, infelizmente...

Thay disse...

Oi, Bru! Dessa vez concordamos, a queda na qualidade do primeiro álbum da Malika para esse foi brutal. Uma pena. Só resta esperar pelo próximo.

Fabio, seu comentário foi uma gratíssima surpresa. Acredito que muitas dessas "páginas de incoerência" como você mesmo citou aconteçam simplesmente porque o público não esteja preparado para o refinamento e a profundidade de alguns cantores. É cada vez mais comum o sucesso ser cada vez maior de cantores saídos de talent shows que podem ir moldando o seu próprio perfil ao que o público, saindo sabendo exatamente o que as pessoas querem ouvir. Enquanto, em contrapartida cantores que falam de forma uma pouco diferente, que ousam e que causam sensações diferentes das habituais simplesmente sejam descartados por serem pouco comerciais. Adoro o trabalho a Valentina, caso você tenha interesse resenhei o álbum póstumo dela, lá falo um pouco mais das impressões que tive e tenho sobre ela. Continue comentado! Obrigada pela visita e pelo excelente comentário. Abraço!

Fabio disse...

Sou grande fã da Vale, e fico feliz de ver que não sou o único no Brasil. O trabalho dela é de altíssima qualidade, inovador, original, muito fora do comum. O sentimento que ela, de forma muito natural, transmite nas músicas é único. Creio que ela tenha sido muito avante ao tempo para ser compreendida. É triste saber que ela não teve o reconhecimento que merecia, e ainda muito mais triste o fato dela ter partido tão precocemente. Sabe-se lá se teremos novamente uma artista desse nível... Em relação aos talent shows, basta olhar para os dois últimos vencedores do San Remo. É inaceitável ver o festival que revelou Domenico Modugno ao mundo chegar a esse ponto.

Bruna / Chiisana Hana disse...

Opa! Tem mais uma fã da Vale aqui, Fabio! Euzinha!!! A princípio, não gostava. As músicas soavam estranhas demais para o meu gosto. Mas, aos poucos, fui ouvindo com calma, e passei a compreender e apreciar muito o trabalho dela. Pena que foi já bem perto da trágica e precoce morte...